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Interview with... Nuno Passarinho
Taken on 2009-06-09
Pergunta complicada...neste momento existe muitas escolhas de qualidade e como tal não tenho uma ideia formada. Apenas posso dizer que na baliza, neste momento, escolhia o Quim (apesar da má fase que passou esta época no Benfica). Acho que tem bastante experiência em comparação com os outros. Como guarda-redes, cresci na altura do Vítor Baía e era realmente o meu ídolo. Neste momento aprecio as grandes qualidades do Iker Casillas e principalmente a sua frieza. Sim, tive até bastantes jogos especiais. Recordo-me de cada um e acho-os todos importantes na mesma medida. Destaco dois:
- Sardoal 4 - 3 Tomar, por um pormenor raro, a minha equipa estava empatada a 3 bolas e aos 90m fiz golo de uma baliza à outra...dei a vitória à minha equipa. - Sardoal 3 - 1 Abrantes, um jogo com o campo cheio, as pessoas de Abrantes deslocaram-se em massa para ver os excelentes jogadores de Abrantes vencerem o pequeno Sardoal, mas não foi assim. Com grande concentração o Sardoal venceu o gigante Abrantes sem margem para dúvidas...foi a força de um grupo. Para além destes jogos todos aqueles em que sinto que a minha equipa ganhou pontos à minha conta, ficam marcados. Lagartos do SardoalSim...é um clube com poucos pergaminhos, mas foi também o clube que me criou como jogador e como homem. Acho que muito da minha maneira de ser se deve ao que lá aprendi e às pessoas com quem convivi. Ouvi sempre o que me tinham para dizer, mesmo que fosse dito por jogadores com pouca qualidade. Para mim todos os jogadores eram importantes e todos melhores que eu ao nível da experiência. Tentei absorver o máximo de cada um e aceitei sempre os conselhos que me deram. Poucas são as pessoas que acompanham estes campeonatos, e os poucos que existem acompanham os clubes das cidades. Sei o quanto foi dificil para mim aparecer nas divisões nacionais e o que tive que trabalhar para que tal acontecesse. Não é nada fácil e quando chegamos às nacionais, vêem-nos como jogadores de distrital...temos apenas um ano desportivo para provar o contrário. AbrantesA oportunidade surgiu com a redução no orçamento do Abrantes FC. O director desportivo teve que procurar o guarda-redes mais referenciado das distritais e lá me encontrou. Teve a capacidade de arriscar e penso que não o desapontei em nada, devo-lhe tudo a ele e ao Vítor Alves (treinador do Monsanto) que apesar de sair do Abrantes FC na altura que entrei deu a sua referência positiva sobre mim ao treinador que se lhe seguiu em Abrantes (Ricardo Moura). Na altura senti que a minha oportunidade tinha chegado, que era merecida, que pecava por tardia; mas tinha que a agarrar com tudo. Sim, as diferenças são enormes. Custou o primeiro mês a habituar-me, mas a partir daí foi simples. Na IIª divisão, os jogadores pensam e executam muito rápido e bem. É preciso estar sempre muito atento, concentrado e preparado para "voar" a qualquer altura. Nesta divisão a grande maioria dos jogadores têm grande qualidade e qualquer um pode marcar-nos golo, desde o avançado mais pequeno ao defesa mais alto. Como diferença positiva, a IIª divisão possui uma maior e melhor organização, como é óbvio, e faz com que os jogadores tenham grande responsabilidade, cumpram, e com isso dão-me imenso prazer em treinar e jogar. O Abrantes FC foi o meu trampolim, mas este clube estava em decadência, e mais cedo ou mais tarde sentia-se que poderia acontecer o que veio a acontecer. Refiro-me à desclassificação por dívidas a antigos jogadores e treinadores. Para mim foi uma passagem extremamente positiva no plano desportivo, mas no plano financeiro e na estabilidade mental do jogador foi uma passagem negativa. Como respondi na pergunta anterior, sentia-se que a qualquer momento poderia acontecer o que aconteceu. Se não fosse esta época era na próxima. As dívidas a antigos jogadores e treinadores acumulavam-se, não honravam os próprios planos de pagamento que tinham feito, e assim o seu fim já estava traçado. Fiquei extremamente triste porque sentia o clube, era o mais próximo da minha terra, e a minha possibilidade de participar na IIª divisão. Eu gostava do clube e acho que as pessoas gostavam de mim. Podia naquele momento ter que voltar às divisões distritais de onde poderia não voltar a sair... Acho que tive alguma sorte no plano desportivo, apesar de tudo. Penso que a diferença está nos jogadores do Rio Maior. O plantel do Abrantes era constituído por jogadores sem empresário, muitos dos quais já com 30 anos, e também alguns já tinham passado pelo mesmo dilema dos ordenados em atraso. Rio MaiorFelizmente as boas épocas feitas em Abrantes deram-me algum nome nestas divisões e o Rio Maior ao ver-me sem clube, decidiu contratar-me. O treinador já me conhecia de ter jogado contra a equipa dele, procurou referências minhas enquanto pessoa, e não hesitou. Quando assinei pelo clube, acertamos o salário e apenas me disseram que a equipa era para subir de divisão. Deram-me indicação que tudo em Rio Maior estava bem e até me chegaram a dizer: "este clube é como uma empresa...ao dia 8 de cada mês paga-se". Conforme toda a gente constatou, não foi assim. Exactamente...sempre unido. Aquilo que passou nas televisões foi o retrato real do nosso balneário e só assim conseguimos aguentar tanto tempo. Eramos todos bons amigos e os treinos eram um momento para estarmos todos juntos e para nos divertir-mos a jogar futebol. Apesar de toda a gente dar o seu melhor, uns jogavam mais que outros, mas nem por isso os que jogavam menos deixaram de ser as mesmas pessoas que eram, ou deixaram de dar o seu máximo. Recordarei para sempre este grande grupo ao qual me orgulho de ter pertencido. Sim...o sindicato dos jogadores foi a única entidade que nos ajudou em Março, dando-nos o correspondente a um salário da IIIª divisão, ou seja, €350. Quando este processo chegou ao fim, foi mais uma vez o sindicato dos jogadores que resolveu parte do nosso problema, garantindo-nos o equivalente a 3 meses de salário dos 6 que o clube nos devia. A direcção do Rio Maior fez o que fez para salvar o clube da desclassificação, mas não pensou bem no que fez. Isto porque os Juniores não foram ajudados e acarinhados antes disto acontecer, e agora que precisaram deles deram-lhes tudo para que eles salvassem o clube. Ou seja, agora vejo algumas reportagens dos dirigentes a dizerem que esses jogadores devem ser condecorados, entre outras coisas, mas na altura que os juniores, por falta de condições a todos os níveis incluindo até monetários, faziam o seu mau campeonato (não por sua culpa), foram os dirigentes os primeiros a atacarem-nos. Penso que a direcção apenas se serviu deles, aliciando-os com dinheiro para que jogassem, entre outras coisas. Como se costuma dizer, "os fins justificam os meios", e foi isso que mais uma vez esta direcção fez. Já falei um pouco disso atrás...o grupo foi um dos pontos positivos que registei na passagem por Rio Maior. É claro que no plano desportivo as coisas me correram bem, sendo também um ponto positivo, mas o grupo que conheci supera esse. Foi um conjunto fantástico que conheci e que tentarei manter sempre o contacto com todos os elementos que o constituíram. Período de descontos: ConclusõesÉ complicado...já tentei fazer isso uma vez e já tinha mais que onze jogadores para colocar. Mas vou tentar, escrevo o nome e o clube onde joguei com esse jogador:
Outros jogadores da mesma qualidade mas que não consigo encaixar porque só podem ser onze:
Histórias existem imensas, todos os balneários tem as suas histórias e bem divertidas. Destaco uma história entre o Marçal (Abrantes FC) e o Hélio (Abrantes FC). Nem sei se isto chegou mesmo a acontecer em algum treino, mas acho só que era uma forma da malta brincar com o Hélio: O Hélio é gago, e a meio do jogo apercebe-se que o Marçal possui um jogador nas suas costas em situação de finalizar caso lhe colocassem a bola em óptimas condições, então gritou para avisar o Marçal, mas como era gago demorou muito tempo a transmitir a mensagem e quando acabou de dizer já tinham sofrido golo. O Marçal como era brasileiro imitava muito bem, era algo do género: "...Mar..ar..ar...ça..ça..ça.. aaaaaaaallllll....cui....cui.....cui...cui...cuidado!" Penso que a falta de pagamento faz com que haja uma forte união do grupo. Se for constituído por jogadores com grande qualidade humana não se nota nos resultados desportivos, caso contrário, nota-se. Eu já vivi isso por três vezes, e sei a diferença entre ter um excelente grupo e um grupo simplesmente mais ou menos. Existem jogadores que só se preocupam com eles próprios e desde que para eles haja dinheiro, não importa o resto. Espero acertar num clube que pague desta vez (os meus colegas já me tratam por pé frio). Já tenho algumas propostas e abordagens, ainda não sei para onde irei, mas gostava de voltar a jogar na IIª divisão. Acho que o futebol em geral tem que levar uma volta bem grande ao nível directivo. Terá que haver sanções pesadas para quem não cumpre com os jogadores, porque sem jogadores não há clube. Sei que existem clubes que honram todos os seus compromissos, mas infelizmente existem muitos que não o fazem. No inicio da minha carreira jogava num clube que não pagava, mas diziam mesmo que não pagavam, ou seja, os jogadores sabiam com o que contavam, depois cheguei a clubes nacionais que querem resultados desportivos, necessitam de bons jogadores, mas não têm dinheiro para lhes pagar. Ás vezes mais vale construir uma equipa mais barata, descer de divisão, mas estabilizar todas as suas contas. Também sei que a crise do nosso país afecta todos os sectores, e também os clubes passam por isso. Está complicado para toda a gente, mas mais vale ser verdadeiro e não enganarem jogadores, porque o jogador de futebol é uma pessoa como outra qualquer, tem uma familia por trás dele que também sofre com isso. As pessoas abordam-me para que treine guarda-redes...já apareceram guarda-redes um pouco mais novos que eu, que me pediram para que os treinasse. É claro que sei muito do treino de guarda-redes, e domino as técnicas necessárias para bem defender...mas isso não é tudo. Um guarda-redes tem que nascer para o ser...é complicado treinar alguém que não está predisposto para ser guarda-redes. Hoje vê-se muito de ex-jogadores que passam a ser treinadores. Eu não me vejo muito nesse papel...mas quem me diz a mim que tal não irá acontecer...nunca se sabe. Estou a terminar o meu mestrado em Engenharia Informática na Universidade de Coimbra, o que é uma salvaguarda para um dia que deixe de jogar futebol, ou poderei conciliar ambas as coisas. No inicio estava nas distritais e sonhava ir às nacionais; consegui lá chegar e gostei muito de jogar na IIª divisão. Neste momento apenas sonho voltar a jogar na IIª divisão. Posso até ter potencial para ir mais acima, mas não penso muito nisso... Para quem jogava há tão pouco tempo nas distritais já é óptimo disputar a IIª divisão. É claro que toda a gente sonha em chegar à Superliga... também gostava e se tivesse uma oportunidade não dizia que não, mas acho que devo ter os pés bem acentes na terra, e jogar sem esse pensamento. Acho que se jogasse com esse pensamento erraria muito mais vezes, e seria bem pior para mim. Assim jogo de uma forma bem tranquila, o que num guarda-redes é um factor muito importante. O ForaDeJogo.net aproveita para agradecer a amabilidade de Nuno Passarinho e deseja-lhe as maiores felicidades para a sua vida pessoal e desportiva, torcendo para que na próxima época encontre o emblema cumpridor que tanto já fez por merecer. Para uma outra entrevista com o jogador pode consultar o blog de João Prates, disponível neste link. |
Birthday
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